23/09/2026

Bilbo e Frodo carregaram o mesmo Anel, mas por que ele afetou cada um de forma tão diferente?

Na semana em que fãs de Tolkien celebram o aniversário dos dois hobbits, psicólogo e fundador do Instituto RPG Terapia usa "O Senhor dos Anéis" para explicar como história, contexto e experiências anteriores transformam a maneira como lidamos com uma mesma situação

Na literatura fantástica, poucos objetos se tornaram tão emblemáticos quanto o Um Anel de O Senhor dos Anéis. Mas, apesar de passar pelas mãos de diferentes personagens, ele não provoca exatamente a mesma relação em todos eles. Na semana em que são celebrados os aniversários de Bilbo e Frodo Bolseiro, personagens entre os mais queridos do universo criado por J.R.R. Tolkien, essa diferença pode servir também como ponto de partida para entender um aspecto do comportamento humano.

Para o psicólogo Dr. Manoel Acioli, fundador e diretor do Instituto RPG Terapia, a trajetória dos dois hobbits mostra como uma mesma experiência pode assumir significados completamente diferentes dependendo de como ela chega até cada pessoa. Bilbo encontra o Anel sem compreender totalmente sua origem, seu poder ou os riscos envolvidos. Frodo, por sua vez, o recebe como uma herança que já carrega consigo uma história, uma ameaça e uma grande responsabilidade.

“Bilbo encontra o Anel. Frodo herda o peso dele. Esse ponto de partida já muda completamente a relação que cada um estabelece com o objeto. Nós não reagimos apenas ao que acontece conosco, mas também ao significado que atribuímos àquela experiência, às expectativas que existem em torno dela e ao momento da vida em que ela aparece”, explica Manoel.

Para Bilbo, o Anel pode representar inicialmente uma vantagem, um segredo ou até mesmo uma ferramenta para viver uma aventura. Já para Frodo, desde o início, ele está relacionado a perigo, medo, obrigação e missão. Com o passar do tempo, no entanto, a relação dos dois com o objeto também se transforma. Aquilo que começa como uma ferramenta para Bilbo passa a ocupar um espaço cada vez maior em sua vida. Frodo, por outro lado, começa carregando algo que não deseja, mas também desenvolve progressivamente uma dificuldade em abandoná-lo.

Segundo o psicólogo, essa mudança ajuda a mostrar que os significados que atribuímos às situações não são necessariamente permanentes.

“Uma experiência pode começar significando uma coisa e, conforme convivemos com ela, passar a representar outra completamente diferente. Repetição, vínculos, expectativas e consequências modificam o valor emocional que damos às coisas. É por isso que algo que inicialmente parece apenas positivo ou negativo pode ganhar outras camadas com o passar do tempo”, afirma.

Se o Anel é o mesmo, por que ele não afeta todos igualmente? -  A própria saga oferece outras pistas para essa discussão. Além de Bilbo e Frodo, personagens como Gollum, Boromir e Galadriel também entram em contato com o poder do Anel e apresentam reações bastante distintas.

Para Manoel, essa é justamente uma das características que tornam a obra interessante do ponto de vista psicológico. Uma mesma situação encontra pessoas com histórias, desejos, medos, repertórios e vulnerabilidades diferentes. Por isso, seus efeitos também não precisam ser iguais.

“Às vezes buscamos uma resposta única para explicar por que determinada experiência afetou tanto uma pessoa e aparentemente menos outra. Mas não existe uma experiência acontecendo no vazio. Ela encontra uma história que já estava acontecendo antes. Quando olhamos para Bilbo, Frodo, Boromir ou Gollum, por exemplo, o Anel é o mesmo, mas quem entra em contato com ele não é.”

Mais do que apenas um objeto poderoso dentro da narrativa de Tolkien, o Um Anel pode, portanto, funcionar como uma metáfora para compreender que o significado psicológico de uma experiência não está somente naquilo que aconteceu, mas também na trajetória de quem a vivenciou.

Sobre Manoel Acioli

Dr. Manoel Acioli é psicólogo formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), especialista em Saúde Mental, mestre, doutor e pós-doutor em Psicologia pela UFPE, com parte de sua trajetória acadêmica desenvolvida em cooperação com a Aix-Marseille Université e a Université Lumière Lyon 2, na França. Já atuou como professor universitário e hoje trabalha com psicoterapia, pesquisa e projetos que aproximam psicologia, jogos e imaginação. É fundador e diretor do Instituto RPG Terapia e desenvolve trabalhos relacionados ao uso de narrativas e experiências lúdicas em contextos psicológicos, incluindo a RPG Terapia e a Terapia de Imersão Imaginativa.